Cirurgia guiada por fluorescência pode transformar o controle de margens em câncer de cabeça e pescoço
Ensaio clínico de fase 2 mostra que técnica que combina fluorescência tumoral e análise intraoperatória de tecido identifica margens cirúrgicas inadequadas em até 95% dos casos, reduzindo o risco de tumor residual.

Domínio público
Um ensaio clínico publicado nesta segunda-feira (10), na revista Nature Communications, sugere que uma nova estratégia para análise de margens cirúrgicas pode melhorar significativamente a precisão das cirurgias para câncer de cabeça e pescoço. O método, chamado seccionamento intraoperatório guiado por fluorescência de tecido fresco (FG-FFS, na sigla em inglês), combina imagem molecular fluorescente com análise rápida de amostras durante a operação.
Os resultados indicam que a técnica conseguiu identificar margens inadequadas em 95% dos pacientes, abrindo caminho para reduzir recidivas tumorais após cirurgia.
O estudo foi liderado por Thomas S. Nijboer e Floris J. Voskuil, pesquisadores do University Medical Center Groningen (UMCG) e da University of Groningen, na Holanda, com colaboração de cirurgiões, patologistas e especialistas em imagem molecular.
Um desafio persistente na oncologia cirúrgica
Em tumores de cabeça e pescoço, a remoção completa do tumor é crucial. Mesmo pequenas quantidades de tecido maligno deixadas para trás podem aumentar drasticamente o risco de recorrência e reduzir a sobrevida do paciente.
Tradicionalmente, cirurgiões dependem da avaliação visual e da palpação do tecido durante o procedimento. Posteriormente, patologistas analisam amostras para verificar se as margens cirúrgicas — o tecido ao redor do tumor removido — estão livres de células cancerígenas.
O problema é que essa análise costuma ocorrer após a cirurgia, quando já não é possível corrigir a remoção incompleta.
“Determinar com precisão se uma margem é segura durante a própria cirurgia continua sendo um dos maiores desafios no tratamento do câncer de cabeça e pescoço”, explica Nijboer, autor principal do estudo.
Como funciona a nova técnica
A abordagem testada pelos pesquisadores combina duas tecnologias. Primeiro, os pacientes recebem um marcador fluorescente que se liga especificamente às células tumorais. Durante a cirurgia, o tumor passa a emitir um sinal visível por câmeras especiais.
Depois que o tumor é removido, os cirurgiões produzem fatias frescas do tecido cirúrgico, que são examinadas imediatamente com imagem fluorescente. Essas regiões suspeitas são então direcionadas para análise rápida de patologia — o chamado fresh frozen section.
Esse processo permite que áreas potencialmente malignas sejam identificadas rapidamente, aumentando a probabilidade de detectar margens comprometidas.
Segundo os autores, o sistema atua como uma espécie de “mapa molecular” que orienta o patologista sobre quais regiões devem ser examinadas com maior atenção.
Teste em um ensaio clínico
No estudo de fase 2, os pesquisadores aplicaram a técnica em 20 pacientes com câncer de cabeça e pescoço submetidos à cirurgia.
O principal objetivo era avaliar se o método conseguiria detectar margens inadequadas ainda durante o procedimento.
Os resultados foram considerados promissores: 19 de 20 pacientes (95%) tiveram margens corretamente identificadas pela técnica FG-FFS; apenas um caso de margem insuficiente não foi detectado; em geral, o método conseguiu destacar regiões suspeitas que poderiam passar despercebidas em análises convencionais.
Para Voskuil, cirurgião e coautor do estudo, o ganho está na precisão do direcionamento das análises patológicas.

Domínio público
“Em vez de examinar o tecido de forma quase aleatória, a fluorescência nos mostra exatamente onde olhar”, afirma. “Isso pode aumentar a eficiência e reduzir o risco de erro.”
Impacto potencial na prática clínica
Atualmente, até 20% a 30% das cirurgias de câncer de cabeça e pescoço resultam em margens positivas ou muito próximas, o que frequentemente exige tratamentos adicionais como radioterapia ou novas cirurgias.
Uma tecnologia que permita corrigir essas margens ainda na mesa cirúrgica poderia ter impacto direto no prognóstico.
“Se conseguimos identificar uma margem inadequada imediatamente, o cirurgião pode remover mais tecido no mesmo procedimento”, explica Nijboer. “Isso evita que o paciente precise retornar para outra cirurgia ou enfrentar maior risco de recidiva.”
Além disso, a abordagem pode tornar a análise patológica intraoperatória mais eficiente, concentrando recursos nas áreas realmente suspeitas.
Integração entre cirurgia e patologia
Um aspecto destacado pelos pesquisadores é a colaboração estreita entre diferentes especialidades médicas.
A técnica foi desenvolvida como uma ponte entre cirurgia oncológica, patologia e imagem molecular, três áreas que raramente trabalham de forma tão integrada.
De acordo com a equipe, o sistema também pode reduzir o tempo de análise intraoperatória, um fator crítico em procedimentos complexos.
“A fluorescência atua como um guia”, diz Voskuil. “Ela nos permite selecionar rapidamente as regiões mais relevantes para análise microscópica.”
Limitações e próximos passos
Apesar dos resultados animadores, os próprios autores ressaltam que o estudo é relativamente pequeno.
Com apenas 20 pacientes, o ensaio de fase 2 foi projetado principalmente para avaliar viabilidade e precisão inicial da técnica.
Ensaios clínicos maiores serão necessários para determinar se o método realmente reduz recidivas tumorais ou melhora a sobrevida dos pacientes.
Outro desafio será integrar a tecnologia ao fluxo de trabalho hospitalar, garantindo que câmeras fluorescentes, equipamentos de análise e equipes treinadas estejam disponíveis durante a cirurgia.
Ainda assim, os pesquisadores acreditam que a estratégia representa um passo importante rumo à chamada cirurgia de precisão, na qual decisões intraoperatórias são guiadas por informações moleculares em tempo real.
Um futuro de cirurgias mais inteligentes
Nos últimos anos, a imagem molecular tem sido cada vez mais explorada para orientar procedimentos cirúrgicos. Tecnologias semelhantes estão sendo testadas em tumores de mama, cérebro e pulmão.
O estudo do grupo holandês sugere que combinar essas ferramentas com análise patológica rápida pode ser particularmente poderoso.
“Nosso objetivo é fornecer aos cirurgiões informações mais confiáveis durante o próprio procedimento”, afirma Nijboer. “Se conseguimos ver o tumor com mais clareza, podemos removê-lo com mais segurança.”
Se confirmada em estudos maiores, a técnica pode redefinir a forma como margens tumorais são avaliadas em cirurgias oncológicas — transformando um processo tradicionalmente retrospectivo em uma decisão imediata e orientada por dados moleculares.
Referência
Nijboer, TS, Keizers, B., Boeve, K. et al. Seccionamento intraoperatório de tecido fresco congelado guiado por fluorescência para controle de margens em câncer de cabeça e pescoço: ensaio clínico de fase 2. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-70264-y